02/01/2026

Dê um nome para a sua geladeira


Tive um insight esses dias. Sobre geladeiras, mas não somente. Atualmente, eu tô lendo um livro chamado
Lembranças do futuro, do Luiz Sergio Raghy, um dos participantes do grupo Viajou Sem Passaporte. Um dos primeiros capítulos do livro é dedicado à geladeira. Isso mesmo, ao eletrodoméstico geladeira. O autor fala de uma mística própria do eletrodoméstico, que ele cientificiza chamando de Freezen machina vulgaris.


"E não podemos esquecer de que a Freezen machina vulgaris é dotada de uma sedutora luz interior. Quem nunca abriu uma geladeira no escuro não sabe a qualidade da experiência que está perdendo. É algo simultaneamente sensorial e estimulante. Poderíamos dizer até que é experiência que se atreveria ao transcendental. Epifânica, na definição de alguns mais entusiasmados, sem nos esquecermos de que o conceito está sendo aplicado aos restritos limites do universo medíocre dos lares contemporâneos, lógico."


Flerta com o transcendental, né? A porta se abre, a luz acende, o mundo suspende por alguns segundos. Mais pra frente, ele fala da invisibilidade da geladeira na rotina doméstica:


"(...) dificilmente nos dirigimos à geladeira pensando na própria. Dificilmente pensamos “estou diante da geladeira, vou abri-la e escolher algum produto saboroso para consumir”. Sequer agradecemos pelos seus serviços prestados."


Não me identifiquei tanto, já que eu me acho bastante consciente dessas coisinhas rotineiras. Mais do que é saudável, provavelmente. Logo depois, ele faz uma sugestão que, essa sim, me pegou de vez.


"Outra sugestão que podemos oferecer é batizarmos nossas Freezen machina vulgaris com um nome ou apelido. Certamente elas gostarão do tratamento diferenciado, e nosso vocabulário se enriquecerá com expressões como: “Vou pegar uma cerveja no Crisóstomo”. Ou ainda: “Querido, pegue a sobremesa na Brenda”. Ou quem sabe: “Coloque o sorvete na Janjona, Mário”."


Daí me veio um insight materialista: o fetiche da mercadoria funciona melhor quando o objeto é mudo e anônimo.

Se a gente vivesse num mundo menos empenhado em apagar suas próprias origens, cada eletrodoméstico teria créditos, tipo um filme. Um sistema que cruzasse o número de série do objeto com folhas de ponto das fábricas, das cadeias de extração, das linhas de montagem, da logística de distribuição. Da rocha arrancada do chão ao último parafuso apertado, do depósito até sua porta. Créditos mesmo, tipo de filme. Exigência sindical. Seria gigantaresco (tipo de filme). Pro seu liquidificador Mondial. Pra sua geladeira Electrolux. Pro seu ventilador Britânia.

Isso é tecnicamente possível, mas politicamente inviável. O sistema não gosta de objetos com história. É importante apagar as mãos, o suor, os turnos, os corpos, as minas, as soldas, os acidentes.


Mas a sugestão do Raghy, de batizar as geladeiras, também parece funcionar como um gesto de desfetichização do mundo.


Porque dar um nome à geladeira não é acreditar que ela tem alma. É recusar a ideia de que ela surgiu do nada, como um feitiço. É um doidismo consciente. Uma pequena sabotagem contra o universo funcional e medíocre em que se configurou a vida nos nossos tempos.


Quando a geladeira se chama Janjona, Crisóstomo ou Brenda, ela deixa de ser apenas um utensílio e passa a ocupar um lugar no campo da existência. Não porque virou sujeito, mas porque deixou de ser uma coisa neutra.


Raghy observa que dificilmente pensamos “estou diante da geladeira”. A gente não agradece seus serviços. A gente sequer reconhece sua presença. O nome é o primeiro gesto de agradecimento. Um lembrete mínimo de que aquilo ali não é magia industrial, mas condensação de mundo, trabalho e tempo.


Se a gente ainda não posso ler os créditos com os nomes de todos os operários colados na lateral da geladeira, eu ao menos me recuso a fingir que ela nasceu pronta. Dou a ela um nome próprio para lembrar que ela é presença.


E que toda presença tem história, mesmo quando o sistema insiste em apagá-la.

11/12/2025

Existe magia de verdade, e ela é de mentira

Foto de Xenia Nikolskaya, do livro Plastic Jesus (Kerber Verlag, 2025)


A magia existe. Mas não é do jeitinho que te prometeram. Não existe energia saindo da sua mão, não existe intercessão secreta, não existe metafísica operacional. O que existe é algo mais banal e, por isso mesmo, mais bonito: acordos simbólicos. Magia é um pacto de imaginação compartilhada. Um faz de conta levado a sério o suficiente para fazer efeito, mas nunca a ponto de virar dogma.


Toda religião faz isso. A diferença é que algumas admitem. Outras fingem que não.


O cristianismo, por exemplo, é muito mágico, muito místico.

Alguns cristianismos chamam seus encantos de “sacramentos”, “bênçãos”, “correntes”, “objetos devocionais”.

Tem quem pendure a pomba do Espírito Santo em cima da porta, tem quem pendura terço no retrovisor, tem quem usa escapulário para proteção, tem quem faz promessa, tem quem se junte à campanha de libertação de um pastor e um mooonte de etc. Um monte. Cristianismo é mandinga pura. A magia cristã não é especial. Nem melhor. Nem pior. É só mais uma maneira humana de usar linguagem para atravessar a própria vida.

Só que a estrutura é a mesma de qualquer outra prática ritualística do planeta. É um tipo de consenso simbólico: a gente coloca significado num objeto ou ritual e acredita que isso muda alguma coisa em nós, nos outros, no mundo.

Ninguém está, de fato, interferindo no cosmos. A gente, no máximo, consegue interferir na gente. E isso já é coisa pra caramba!


E é justamente aí que mora a graça: se toda magia é uma combinação de gesto, objeto e intenção, então você não precisa esperar que uma instituição te diga como fazer. Você pode inventar rituais. E pode inventar rituais com outras pessoas.

Rituais em grupo são maravilhosos porque tornam explícito aquilo que toda religião esconde: a magia acontece quando todo mundo topa brincar do mesmo faz de conta. A força não está no sobrenatural, mas na coordenação humana. É uma espécie de teatro emocional, poesia aplicada, placebo consentido. É uma pequena máquina de catarse.


Quando você acende uma vela, combina uma palavra secreta entre amigos, repete um gesto antes de tomar uma decisão ou coisa e tal, você não está acionando forças invisíveis. Está criando estrutura emocional para lidar com o caos. Está fabricando purgação, descanso, frenesi, foco, humor, coragem companhia e o escambau.


A magia não é material.

Não é real no sentido metafísico.

Mas pode ser importantíssima no sentido humano.


O erro nunca foi fazer magia.

O erro sempre foi esquecer que é um jogo simbólico.

É como acreditar que uma peça de teatro é de verdade e não perceber que a profundidade está justamente no fato de ser encenação.


Então inventa aí seu ritual.

Ou inventa junto com alguém ou vários alguénzes.

Você pode tentar mudar o destino, acessar o além, interferir na realidade material. Você não vai conseguir, mas magicar pode ser muito importante.


Existe magia de verdade. E toda ela é de mentira.

06/05/2025

System of a Down é um fantasma num mundo que precisa de um monstro

Eu nunca fui muito do nu metal, mas eu sempre gostei de System of a Down. Fiquei muito impactado pelo hiato que a banda anunciou em 2006. Uma lástima, depois de dois discos tão potentes: Mesmerize e Hypnotize.

Em 2008, quando o Scars on Broadway, projeto paralelo do guitarrista Daron Malakian, surgiu, eu ainda ressoava com o discurso urgente do vocalista Serj Tankian. O cara tava na ONU. Tava gritando verdades num tom que parecia alto o bastante pra atravessar as paredes do sistema. Já o Daron soava como um derrotista.

Eu nem ouvi Scars on Broadway por muito tempo. Eu gostava tanto do SOAD que parecia traição. Pelo pouco que me chegou, Scars era niilista. Serj era engajado.

Até que um dia, sem querer, eu ouvi Scars on Broadway.

Achei que era música nova do SOAD. Senti aquela pulsação familiar, um estranhamento convidativo. Quando percebi que não era SOAD, decidi ouvir tudo.

E bateu.

O que parecia niilismo era outra coisa. O Daron não queria entrar pela porta da frente. Queria botar fogo na casa e tocar guitarra no meio dos escombros. Não era "não ligo pra nada". Era "ligo tanto que não dá pra aceitar essa palhaçada". Não era menos político que o Serj. Era mais incômodo.

O Serj te leva pro protesto. O Daron te deixa no meio do caos. E às vezes é nessa situação que você sente o que é a ruína.

Isso me fez repensar o percurso do System of a Down.

O Serj era o sentido. A denúncia articulada. O Daron era a presença. Uma declamação que se expressava mais na forma do que na letra. Durante um tempo, a combustão entre os dois funcionou. Mas quando cada um amadureceu sua proposta, eles precisaram de espaço.

Daron soube combinar discurso e forma com precisão. De novo, eu nem sou de nu metal, mas Scars me bagunçou. Já o Serj virou figura pública. Institucional. Respeitável.

E é aí que, pra mim, a balança pende.

O Serj continua necessário, mas domesticado. Ainda grita, mas o grito vem com crachá. Eu até posso ouvir, mas não consigo assumir aquele discurso como meu. O Daron, não. Ele te desconserta, te fere. Expressa a potência da raiva. Mostra que o riso no meio da destruição não é desespero. É lucidez.

O Serj, institucionalmente, inaugura pontes. O Daron queima.

Essa institucionalidade que eu desprezo é meio difusa mesmo. ONU, G7, OTAN, Estados Unidos. A tal "comunidade internacional" que impõe sanções de um lado e fecha os olhos do outro. É esse verniz civilizatório que define o que pode ser dito, sentido, tocado. Um teatrinho de diálogo onde só um lado fala.

Por isso é importante queimar pontes. Porque essas pontes foram impostas. Controladas por um lado só. Determinam as rotas. Cobram pedágio.

Não é como no mato, onde o caminho aparece porque as pessoas passam. Isso seria o ideal. Uma construção comum, orgânica. Pelas lentes do Scars, o mundo se manifesta por violência, e quem canta é a vítima.

E num mundo fudido como o nosso, o que a gente precisa é de Scars on Broadway. Não desse SOAD comportado que conversa mais com a nostalgia do que com o presente.

A gente precisa de barulho. De algo que incomode. De uma arte que diga que não vai ter cura limpa. Que não vai ter redenção dentro das instituições. Não vai ter conserto / concerto se a plateia é sempre a mesma.

A gente precisa de uma arte destrutiva.

Fazer arte propositiva? Só quando o mundo for, de fato, livre. Quando a gente puder criar sem passar pela autorização de um iluminismo fundado no colonialismo e na escravidão.

Até lá, o que a gente precisa é de som que desafine a paz. De uma arte que não se explica.

O SOAD hoje me soa como um fantasma. Um espectro que ronda o que já foi possível. O Scars, não. O Scars é um monstro.

E a etimologia ajuda: a palavra "monstro" vem do latim monstrum, de monere: avisar, mostrar, advertir. O monstro revela. Ele aponta o desequilíbrio. Ele avisa que tem algo errado no que chamam de normal.

O fantasma te prende ao passado. O monstro te revela o presente.

Daqui a alguns dias eu vou assistir a um show do SOAD. Reunido. Vai ser uma seresta. Só velho saudosista tentando acordar os fantasmas da juventude perdida.

Eu vou estar lá não por saudades, mas pra abanar o fogo. Pra ver se ele sai de controle.

Porque, do jeito que as coisas estão dispostas, a criação virou uma destruição consentida. Como dizia o tio Benjamin, "Não há documento da civilização que não seja ao mesmo tempo um documento da barbárie".

E talvez o que a gente precise agora seja o contrário.

Destruição como criação irrestrita.

Simples. Feia. Urgente.

08/04/2025

A civilização é uma resposta merda

 A civilização não é um projeto coletivo. Nunca foi.

Ela também não é exatamente uma conquista. Ela é uma resposta, uma resposta nascida do medo.

Medo da fome, do frio, da seca, da morte. Um medo real, legítimo. Mas em vez de resolver esse medo, a civilização o organizou. Gerenciou, distribuiu, transformou em sistema.

E pra isso, precisou hierarquizar. Cercar, controlar, medir. Precisou dizer: "eu cuido da água, você me obedece". Precisou convencer todo mundo de que obedecer era sobreviver.

A civilização não resolveu a escassez. Ela a gerenciou. Os silos de grãos da Suméria alimentavam exércitos, não famílias. Ela só trocou a fome por dívida. Transformou a escassez em estrutura, em desculpa, em sistema. O medo virou ferramenta administrativa. Virou trabalho. Virou autoridade. Virou religião.

E fez quem questionar a civilização parecer infantil, pouco sofisticado.

A civilização não nasceu de um grande acordo entre humanos. Não foi construída em assembleias onde todos tinham voz. Ela nasceu com a cerca. Com o controle da água. Com a imposição de um calendário que dizia quando você podia plantar e quando devia se ajoelhar.

Desde o início, a civilização é vertical. É esquema de pirâmide. Literalmente.

A gente conta a história como se fosse uma saga do "progresso humano", mas é uma narrativa construída pelos vencedores do medo, os que cercaram, acumularam, dividiram, e chamaram isso de ordem.

E aí nos disseram que tudo o que temos, ciência, medicina, linguagem, arte, poesia, só existe graças à civilização.

Mas é mentira.

A gente criou tudo isso APESAR da civilização.

Criamos porque somos vivos, porque temos mãos, mente, sonho, delírio. Porque gostamos de brincar. Porque dançamos antes mesmo de falar.

A civilização nos ensina que ela é o berço da técnica. Mas a técnica é coisa de povo, de gente. De tentativa. De erro. De invenção em fogueira. De gambiarra.

De querer fazer um brinquedo, não um império.

A civilização é uma resposta. Mas é uma resposta merda.

É como se alguém perguntasse "como vamos viver juntos?", e a civilização respondesse “Com muro, rei, imposto e polícia”.

Blergh!

Mas outras respostas existiram. Outras ainda existem. E outras podem nascer, se a gente parar de obedecer essa primeira.

Não vamos recomeçar. A gente não quer cura. A gente quer instaurar uma crise na normalidade.

Porque a normalidade da civilização é uma normalidade coercitiva. Então ela não é uma normalidade, porque normalidade não existe. A normalidade da civilização é um projeto ideológico. Ela exige que a gente seja útil, comportado, otimizado. Ela faz parecer que o sofrimento é parte natural do contrato social. Não é.

Sabotar essa normalidade é um gesto de liberdade.

A gente não quer destruir tudo. A gente quer pegar o que existe e usar de outro jeito.

As ferramentas estão aí. E não porque a civilização é genial, mas porque a gente inventou coisa demais, apesar dela.

Então vamos usar tudo isso, sim. O portão eletrônico, o drone, o cálculo diferencial, o papel higiênico.

Mas não pra vigiar, explorar, ordenar, higienizar. Vai ser pra dançar, sabotar, delirar, rir, brincar.

Não é sobre voltar pra trás. É sobre mudar o jogo.

A técnica pode ser devota do prazer. A engenharia pode servir ao espanto. O algoritmo pode ser usado para a brincadeira.

Vamos tirar a funcionalidade da frente. Desfuncionalizar o mundo com leveza.

A gente pode mais. A gente já faz mais.

Só falta começar.

05/04/2025

A arte não precisa servir pra nada

Arte, pra mim, é prazer poético pra quem cria e prazer estético pra quem interage. Não precisa mais que isso. Não tem que salvar o mundo, não tem que educar, conscientizar, resistir, revolucionar, embora possa fazer tudo isso, se quiser. Arte pode ter propósito. Só não precisa.

Por prazer poético, não tô falando só de lirismo. Tô falando daquela vibração interna que acontece quando a gente inventa, improvisa, cria. E por prazer estético, não quero dizer o “belo” no sentido clássico, mas aquilo que nos afeta, que nos desloca, que faz o olho brilhar ou mesmo a espinha arrepiar. Prazer estético pode ser o sublime ou o grotesco, o calmo ou o histérico, o leve ou o denso ou tanto faz.

Scott McCloud, autor e teórico dos quadrinhos, tem uma definição que eu gosto: arte é tudo que não vem dos instintos básicos. Se não é sobrevivência nem reprodução, é arte. Ou seja, tamborilar o dedo, desenhar na areia sem sentido... Aquele gesto que não serve pra nada, mas que nos diz alguma coisa.

Eu acho que arte nasce aí, nesse lugar da brincadeira, do jogo. E como somos primatas obcecados por significados, esse jogo vira linguagem, vira presença, vira criação simbólica. Ludicidade com camada. Um impulso que vem lá da infância da espécie e que a gente foi organizando em formas e discursos. Mas a tal “arte” como a entendemos hoje, esse objeto que vai pro museu, separado da vida, isso aí é invenção do Renascimento. Antes disso, arte era rito, decoração, prece, enfeite de cavalo, máscara de festa, capricho de um sujeito com tempo livre. Era corpo e mundo juntos, não uma coisa exposta em um pedestal.

Hoje, ouço muita gente dizendo que toda arte é política. E eu até concordo, no sentido mais amplo: qualquer expressão humana tá embebida de contexto, de valores, de escolhas. Mas repetir isso como mantra tem um custo: acaba virando régua. Um crivo. Uma hierarquia. E, pior ainda, uma pressão.

Porque se toda arte é política, no sentido mais amplo e inescapável, então... qual o ponto em repetir isso o tempo todo? Se é óbvio, se é universal, então não há o que discutir. Só que não é isso que acontece. A repetição não é pra lembrar. É pra validar.

E validar o quê? Uma certa ideia de arte que se apresenta como útil, engajada, transformadora, socialmente consciente. Beleza. Essa arte existe, é importante, é necessária. Mas quando a régua passa a ser essa, a arte que não carrega bandeira começa a ser vista como menor. Superficial. Distraída. Alienada.

Aí o leitor que se diverte com um poema bobo começa a achar que tá perdendo tempo. O espectador que ri com um filme estranho se sente culpado. O criador que faz arte por prazer, por vertigem, por impulso, começa a achar que tá sendo irrelevante. Que é vazio. Que precisava estar dizendo algo importante.

E aí a estética vira acessório do discurso. A fruição vira desculpa. A ludicidade poética, essa experiência fundadora da nossa espécie, esse luxo sem função que nos separa das máquinas, vira capricho. Desvio. Erro.

Não tô dizendo que arte engajada não vale. Pelo contrário: vale demais. Só não vale mais. O manifesto não é maior que a anedota. O panfleto não é mais profundo que o sonho. A arte pode ser tudo, inclusive só arte.

Eu sou de esquerda, engajado, mas não sou bitolado. Eu gosto de arte que cutuca. Eu gosto de arte que dança. Gosto de manifesto e gosto de trocadilho ruim. Gosto de coisas que não servem pra nada, mas mudam meu dia. Gosto de, sei lá, Ramones.

Pra mim, Ramones é tipo o Beavis & Butthead do punk. Só que eles não são sátira. Eles são aquilo mesmo. Simples, direto, sem metáfora. Punk sem aspas. Um som que não tenta provar nada. E, ainda assim, arte.

Mais uma: Ursula K. Le Guin é mais válido que Douglas Adams?

Le Guin escreve com política explícita e mundos que testam futuros possíveis. Adams escreve com leveza cósmica, nonsense, ironia existencial. Um te dá epifania, o outro te dá riso com gosto de abismo. Os dois te transformam, um com silêncio profundo, o outro com gargalhada. Quem ousa dizer qual tem mais valor?

A mesma coisa vale pro cinema. Buster Keaton é menos arte que Charles Chaplin? Porque um é um artista da gag física e o outro fez o Grande Ditador? Chaplin é genial, claro. Mas Keaton também é. Um falava com palavras, o outro com o corpo. Um com discurso, o outro com o abismo. E os dois são arte.

Se arte é produção de presença, os dois têm. Se arte é prazer estético ou poético, os dois têm. Se arte é política, Le Guin é mais direta, mas Adams, ao rir da burocracia interestelar e da insignificância humana, não está sendo apolítico.

A arte não precisa se justificar. Se quiser, pode. Se não quiser, tá tudo bem também. Se tudo precisa ser útil o tempo todo, então talvez o que a gente perdeu não foi o senso crítico, não. Foi a capacidade de brincar. E isso é perigosíssimo.

07/03/2025

Quantidade, não qualidade

Não sei se é universal, não sei se é o Ocidente, o que eu sei que eu sempre ouvi um discurso, em tudo quanto é canto, da primazia da qualidade sobre a quantidade. Sabe? E parece fazer sentido, né?


De um ponto de vista cognitivo, hermenêutico, focar em quantidade parece ter um quê de desperdício, de hedonismo, de burrice até.


Mas acho que se faz necessário uma defesa da quantidade.


Obviamente que eu não sou um acumulador capitalista descerebrado, mas tem um prazer inenarrável na quantidade que a qualidade não atinge. A qualidade não explora esse terreno, saca?


Lembro de uma vez, quando eu era adolescente, que minha mãe deu uma barra de chocolate de presente, uma pra mim e outra pro meu irmão. Eu devorei a minha na mesma hora. O paladar importava menos que o frenesi. Foi gostoso, mas não necessariamente pras papilas gustativas. Foi outro tipo de prazer. Um prazer destrutivo, talvez? Não sei muito bem, não fiquei confabulando. Sei que eu fui repreendido.


Eu consigo entender o prazer qualitativo quando uma pessoa tenta esgotar cada molécula de sabor deglutindo bem devagar pra dar tempo do corpo processar o sabor, consigo mesmo. Eu, eventualmente, faço isso com uma coisa ou outra. É agradável, é prazeiroso.


Mas isso não tira um prazer totalmente diferente que a experiência quantitativa oferece.


Sabe quando você vai fazer xixi com a bexiga quase, quase estourando? Então, prazer.


O Wilhelm Reich deve falar algo nesse sentido, num é possível que eu esteja sozinho nessa. O Reich ou alguém, sei lá.


Ou subir uma ladeira bem grande pra descer de rolimã ou ski-bunda com papelão? Descer devagarinho pra experimentar cada pedaço de verticalidade se desdobrando aos pouquinhos não tem a MENOR graça, concorda?


O frenesi da quantidade traz uma sensação que não é melhor nem pior que o da qualidade, é diferente. Não é uma questão de opostos, de preto e branco: são matizes sensoriais distintos.


Não é hedonismo. O hedonismo prega um prazer 24/7, de guiar toda a experiência da vida pelo prazer.


Não sou expert, mas sei que Epicuro falava de prazer como ausência de dor (mais contido), enquanto Aristipo, discípulo de Sócrates, pirava no hedonismo forte. Ele teria comido as duas barras de chocolate, a minha e a do meu irmão, antes de alguém sequer dizer "bom apetite".


O que eu tô tentando defender, aqui, é que a experiência quantitativa não é um prazer menor ou inferior à experiência qualitativa. Que o excesso é tão valioso quanto o intenso.


O frenesi de mastigar e engolir algo brutalmente, enquanto experiência, pode ser tão prazeiroso quanto (ou até maior) que prazer gustativo de um paladar lento e intenso.


Porque, no fim das contas, às vezes a vida pede mesmo um frenesi de chocolate, uma ladeira gigante e uma bexiga quase explodindo. Eu amo a quantidade!

16/01/2025

Laboratório Ex-peri-mental

Esta é a quarta encarnação do meu blog pessoal, sempre com um nome parecido.

Dessa vez decidi chamá-lo só de Laboratório Ex-peri-mental.

Laboratório porque meu blog vai ser um lugar de pesquisas, experiências e análises.

E Ex-peri-mental? Ex porque já nasce não sendo. É tipo um "tem, mas acabou". Peri-mental combina o radical peri-, que tem a ver com perímetro ou arredores, com mental, como em um trabalho mental. Isso porque minha intenção com esse blog é margear um trabalho intelectual, pero no mucho. Não quero assumir responsabilidades, né? Quero brincar de pensar. Por mais que eu leve brincadeira bem a sério, ainda é brincadeira.

Agora, por que diabos criar um blog em pleno 2025? É porque eu quero escrever. Eu gosto de escrever e tava sentindo falta de escrever. E tô de bode com a Meta, né? Um mal estar com Facebook, Instagram.

Se ninguém ler nada do que eu postar aqui, não faz mal. Quase ninguém lê nada do que eu posto nas redes sociais também. Só mudei o endereço. Mas blog é mais convidativo pra ler do que rede social. Pode ser que, um dia, algum desavisado leia alguma coisa aqui e curta e queira trocar uma ideia. Ia ser bem bacana.

Enfim, inaugurado!

Dê um nome para a sua geladeira

Tive um insight esses dias. Sobre geladeiras, mas não somente. Atualmente, eu tô lendo um livro chamado Lembranças do futuro , do Luiz Sergi...