11/12/2025

Existe magia de verdade, e ela é de mentira

Foto de Xenia Nikolskaya, do livro Plastic Jesus (Kerber Verlag, 2025)


A magia existe. Mas não é do jeitinho que te prometeram. Não existe energia saindo da sua mão, não existe intercessão secreta, não existe metafísica operacional. O que existe é algo mais banal e, por isso mesmo, mais bonito: acordos simbólicos. Magia é um pacto de imaginação compartilhada. Um faz de conta levado a sério o suficiente para fazer efeito, mas nunca a ponto de virar dogma.


Toda religião faz isso. A diferença é que algumas admitem. Outras fingem que não.


O cristianismo, por exemplo, é muito mágico, muito místico.

Alguns cristianismos chamam seus encantos de “sacramentos”, “bênçãos”, “correntes”, “objetos devocionais”.

Tem quem pendure a pomba do Espírito Santo em cima da porta, tem quem pendura terço no retrovisor, tem quem usa escapulário para proteção, tem quem faz promessa, tem quem se junte à campanha de libertação de um pastor e um mooonte de etc. Um monte. Cristianismo é mandinga pura. A magia cristã não é especial. Nem melhor. Nem pior. É só mais uma maneira humana de usar linguagem para atravessar a própria vida.

Só que a estrutura é a mesma de qualquer outra prática ritualística do planeta. É um tipo de consenso simbólico: a gente coloca significado num objeto ou ritual e acredita que isso muda alguma coisa em nós, nos outros, no mundo.

Ninguém está, de fato, interferindo no cosmos. A gente, no máximo, consegue interferir na gente. E isso já é coisa pra caramba!


E é justamente aí que mora a graça: se toda magia é uma combinação de gesto, objeto e intenção, então você não precisa esperar que uma instituição te diga como fazer. Você pode inventar rituais. E pode inventar rituais com outras pessoas.

Rituais em grupo são maravilhosos porque tornam explícito aquilo que toda religião esconde: a magia acontece quando todo mundo topa brincar do mesmo faz de conta. A força não está no sobrenatural, mas na coordenação humana. É uma espécie de teatro emocional, poesia aplicada, placebo consentido. É uma pequena máquina de catarse.


Quando você acende uma vela, combina uma palavra secreta entre amigos, repete um gesto antes de tomar uma decisão ou coisa e tal, você não está acionando forças invisíveis. Está criando estrutura emocional para lidar com o caos. Está fabricando purgação, descanso, frenesi, foco, humor, coragem companhia e o escambau.


A magia não é material.

Não é real no sentido metafísico.

Mas pode ser importantíssima no sentido humano.


O erro nunca foi fazer magia.

O erro sempre foi esquecer que é um jogo simbólico.

É como acreditar que uma peça de teatro é de verdade e não perceber que a profundidade está justamente no fato de ser encenação.


Então inventa aí seu ritual.

Ou inventa junto com alguém ou vários alguénzes.

Você pode tentar mudar o destino, acessar o além, interferir na realidade material. Você não vai conseguir, mas magicar pode ser muito importante.


Existe magia de verdade. E toda ela é de mentira.

Um comentário:

  1. Lembrei da série Bones onde a protagonista lança "Eu não odeio sua religião, eu acho todas as religiões igualmente ilógicas". Rituais são legais e importantes porque um mundo simbólico rico e saber diferenciar o concreto do imaginado, são sinais de saúde, e digo isso como um psicólogo meio ateu, mas meio bruxo. Parabéns pelo texto. 😄

    ResponderExcluir

Dê um nome para a sua geladeira

Tive um insight esses dias. Sobre geladeiras, mas não somente. Atualmente, eu tô lendo um livro chamado Lembranças do futuro , do Luiz Sergi...