A civilização não é um projeto coletivo. Nunca foi.
Ela também não é exatamente uma conquista. Ela é uma resposta, uma resposta nascida do medo.
Medo da fome, do frio, da seca, da morte. Um medo real, legítimo. Mas em vez de resolver esse medo, a civilização o organizou. Gerenciou, distribuiu, transformou em sistema.
E pra isso, precisou hierarquizar. Cercar, controlar, medir. Precisou dizer: "eu cuido da água, você me obedece". Precisou convencer todo mundo de que obedecer era sobreviver.
A civilização não resolveu a escassez. Ela a gerenciou. Os silos de grãos da Suméria alimentavam exércitos, não famílias. Ela só trocou a fome por dívida. Transformou a escassez em estrutura, em desculpa, em sistema. O medo virou ferramenta administrativa. Virou trabalho. Virou autoridade. Virou religião.
E fez quem questionar a civilização parecer infantil, pouco sofisticado.
A civilização não nasceu de um grande acordo entre humanos. Não foi construída em assembleias onde todos tinham voz. Ela nasceu com a cerca. Com o controle da água. Com a imposição de um calendário que dizia quando você podia plantar e quando devia se ajoelhar.
Desde o início, a civilização é vertical. É esquema de pirâmide. Literalmente.
A gente conta a história como se fosse uma saga do "progresso humano", mas é uma narrativa construída pelos vencedores do medo, os que cercaram, acumularam, dividiram, e chamaram isso de ordem.
E aí nos disseram que tudo o que temos, ciência, medicina, linguagem, arte, poesia, só existe graças à civilização.
Mas é mentira.
A gente criou tudo isso APESAR da civilização.
Criamos porque somos vivos, porque temos mãos, mente, sonho, delírio. Porque gostamos de brincar. Porque dançamos antes mesmo de falar.
A civilização nos ensina que ela é o berço da técnica. Mas a técnica é coisa de povo, de gente. De tentativa. De erro. De invenção em fogueira. De gambiarra.
De querer fazer um brinquedo, não um império.
A civilização é uma resposta. Mas é uma resposta merda.
É como se alguém perguntasse "como vamos viver juntos?", e a civilização respondesse “Com muro, rei, imposto e polícia”.
Blergh!
Mas outras respostas existiram. Outras ainda existem. E outras podem nascer, se a gente parar de obedecer essa primeira.
Não vamos recomeçar. A gente não quer cura. A gente quer instaurar uma crise na normalidade.
Porque a normalidade da civilização é uma normalidade coercitiva. Então ela não é uma normalidade, porque normalidade não existe. A normalidade da civilização é um projeto ideológico. Ela exige que a gente seja útil, comportado, otimizado. Ela faz parecer que o sofrimento é parte natural do contrato social. Não é.
Sabotar essa normalidade é um gesto de liberdade.
A gente não quer destruir tudo. A gente quer pegar o que existe e usar de outro jeito.
As ferramentas estão aí. E não porque a civilização é genial, mas porque a gente inventou coisa demais, apesar dela.
Então vamos usar tudo isso, sim. O portão eletrônico, o drone, o cálculo diferencial, o papel higiênico.
Mas não pra vigiar, explorar, ordenar, higienizar. Vai ser pra dançar, sabotar, delirar, rir, brincar.
Não é sobre voltar pra trás. É sobre mudar o jogo.
A técnica pode ser devota do prazer. A engenharia pode servir ao espanto. O algoritmo pode ser usado para a brincadeira.
Vamos tirar a funcionalidade da frente. Desfuncionalizar o mundo com leveza.
A gente pode mais. A gente já faz mais.
Só falta começar.