08/04/2025

A civilização é uma resposta merda

 A civilização não é um projeto coletivo. Nunca foi.

Ela também não é exatamente uma conquista. Ela é uma resposta, uma resposta nascida do medo.

Medo da fome, do frio, da seca, da morte. Um medo real, legítimo. Mas em vez de resolver esse medo, a civilização o organizou. Gerenciou, distribuiu, transformou em sistema.

E pra isso, precisou hierarquizar. Cercar, controlar, medir. Precisou dizer: "eu cuido da água, você me obedece". Precisou convencer todo mundo de que obedecer era sobreviver.

A civilização não resolveu a escassez. Ela a gerenciou. Os silos de grãos da Suméria alimentavam exércitos, não famílias. Ela só trocou a fome por dívida. Transformou a escassez em estrutura, em desculpa, em sistema. O medo virou ferramenta administrativa. Virou trabalho. Virou autoridade. Virou religião.

E fez quem questionar a civilização parecer infantil, pouco sofisticado.

A civilização não nasceu de um grande acordo entre humanos. Não foi construída em assembleias onde todos tinham voz. Ela nasceu com a cerca. Com o controle da água. Com a imposição de um calendário que dizia quando você podia plantar e quando devia se ajoelhar.

Desde o início, a civilização é vertical. É esquema de pirâmide. Literalmente.

A gente conta a história como se fosse uma saga do "progresso humano", mas é uma narrativa construída pelos vencedores do medo, os que cercaram, acumularam, dividiram, e chamaram isso de ordem.

E aí nos disseram que tudo o que temos, ciência, medicina, linguagem, arte, poesia, só existe graças à civilização.

Mas é mentira.

A gente criou tudo isso APESAR da civilização.

Criamos porque somos vivos, porque temos mãos, mente, sonho, delírio. Porque gostamos de brincar. Porque dançamos antes mesmo de falar.

A civilização nos ensina que ela é o berço da técnica. Mas a técnica é coisa de povo, de gente. De tentativa. De erro. De invenção em fogueira. De gambiarra.

De querer fazer um brinquedo, não um império.

A civilização é uma resposta. Mas é uma resposta merda.

É como se alguém perguntasse "como vamos viver juntos?", e a civilização respondesse “Com muro, rei, imposto e polícia”.

Blergh!

Mas outras respostas existiram. Outras ainda existem. E outras podem nascer, se a gente parar de obedecer essa primeira.

Não vamos recomeçar. A gente não quer cura. A gente quer instaurar uma crise na normalidade.

Porque a normalidade da civilização é uma normalidade coercitiva. Então ela não é uma normalidade, porque normalidade não existe. A normalidade da civilização é um projeto ideológico. Ela exige que a gente seja útil, comportado, otimizado. Ela faz parecer que o sofrimento é parte natural do contrato social. Não é.

Sabotar essa normalidade é um gesto de liberdade.

A gente não quer destruir tudo. A gente quer pegar o que existe e usar de outro jeito.

As ferramentas estão aí. E não porque a civilização é genial, mas porque a gente inventou coisa demais, apesar dela.

Então vamos usar tudo isso, sim. O portão eletrônico, o drone, o cálculo diferencial, o papel higiênico.

Mas não pra vigiar, explorar, ordenar, higienizar. Vai ser pra dançar, sabotar, delirar, rir, brincar.

Não é sobre voltar pra trás. É sobre mudar o jogo.

A técnica pode ser devota do prazer. A engenharia pode servir ao espanto. O algoritmo pode ser usado para a brincadeira.

Vamos tirar a funcionalidade da frente. Desfuncionalizar o mundo com leveza.

A gente pode mais. A gente já faz mais.

Só falta começar.

05/04/2025

A arte não precisa servir pra nada

Arte, pra mim, é prazer poético pra quem cria e prazer estético pra quem interage. Não precisa mais que isso. Não tem que salvar o mundo, não tem que educar, conscientizar, resistir, revolucionar, embora possa fazer tudo isso, se quiser. Arte pode ter propósito. Só não precisa.

Por prazer poético, não tô falando só de lirismo. Tô falando daquela vibração interna que acontece quando a gente inventa, improvisa, cria. E por prazer estético, não quero dizer o “belo” no sentido clássico, mas aquilo que nos afeta, que nos desloca, que faz o olho brilhar ou mesmo a espinha arrepiar. Prazer estético pode ser o sublime ou o grotesco, o calmo ou o histérico, o leve ou o denso ou tanto faz.

Scott McCloud, autor e teórico dos quadrinhos, tem uma definição que eu gosto: arte é tudo que não vem dos instintos básicos. Se não é sobrevivência nem reprodução, é arte. Ou seja, tamborilar o dedo, desenhar na areia sem sentido... Aquele gesto que não serve pra nada, mas que nos diz alguma coisa.

Eu acho que arte nasce aí, nesse lugar da brincadeira, do jogo. E como somos primatas obcecados por significados, esse jogo vira linguagem, vira presença, vira criação simbólica. Ludicidade com camada. Um impulso que vem lá da infância da espécie e que a gente foi organizando em formas e discursos. Mas a tal “arte” como a entendemos hoje, esse objeto que vai pro museu, separado da vida, isso aí é invenção do Renascimento. Antes disso, arte era rito, decoração, prece, enfeite de cavalo, máscara de festa, capricho de um sujeito com tempo livre. Era corpo e mundo juntos, não uma coisa exposta em um pedestal.

Hoje, ouço muita gente dizendo que toda arte é política. E eu até concordo, no sentido mais amplo: qualquer expressão humana tá embebida de contexto, de valores, de escolhas. Mas repetir isso como mantra tem um custo: acaba virando régua. Um crivo. Uma hierarquia. E, pior ainda, uma pressão.

Porque se toda arte é política, no sentido mais amplo e inescapável, então... qual o ponto em repetir isso o tempo todo? Se é óbvio, se é universal, então não há o que discutir. Só que não é isso que acontece. A repetição não é pra lembrar. É pra validar.

E validar o quê? Uma certa ideia de arte que se apresenta como útil, engajada, transformadora, socialmente consciente. Beleza. Essa arte existe, é importante, é necessária. Mas quando a régua passa a ser essa, a arte que não carrega bandeira começa a ser vista como menor. Superficial. Distraída. Alienada.

Aí o leitor que se diverte com um poema bobo começa a achar que tá perdendo tempo. O espectador que ri com um filme estranho se sente culpado. O criador que faz arte por prazer, por vertigem, por impulso, começa a achar que tá sendo irrelevante. Que é vazio. Que precisava estar dizendo algo importante.

E aí a estética vira acessório do discurso. A fruição vira desculpa. A ludicidade poética, essa experiência fundadora da nossa espécie, esse luxo sem função que nos separa das máquinas, vira capricho. Desvio. Erro.

Não tô dizendo que arte engajada não vale. Pelo contrário: vale demais. Só não vale mais. O manifesto não é maior que a anedota. O panfleto não é mais profundo que o sonho. A arte pode ser tudo, inclusive só arte.

Eu sou de esquerda, engajado, mas não sou bitolado. Eu gosto de arte que cutuca. Eu gosto de arte que dança. Gosto de manifesto e gosto de trocadilho ruim. Gosto de coisas que não servem pra nada, mas mudam meu dia. Gosto de, sei lá, Ramones.

Pra mim, Ramones é tipo o Beavis & Butthead do punk. Só que eles não são sátira. Eles são aquilo mesmo. Simples, direto, sem metáfora. Punk sem aspas. Um som que não tenta provar nada. E, ainda assim, arte.

Mais uma: Ursula K. Le Guin é mais válido que Douglas Adams?

Le Guin escreve com política explícita e mundos que testam futuros possíveis. Adams escreve com leveza cósmica, nonsense, ironia existencial. Um te dá epifania, o outro te dá riso com gosto de abismo. Os dois te transformam, um com silêncio profundo, o outro com gargalhada. Quem ousa dizer qual tem mais valor?

A mesma coisa vale pro cinema. Buster Keaton é menos arte que Charles Chaplin? Porque um é um artista da gag física e o outro fez o Grande Ditador? Chaplin é genial, claro. Mas Keaton também é. Um falava com palavras, o outro com o corpo. Um com discurso, o outro com o abismo. E os dois são arte.

Se arte é produção de presença, os dois têm. Se arte é prazer estético ou poético, os dois têm. Se arte é política, Le Guin é mais direta, mas Adams, ao rir da burocracia interestelar e da insignificância humana, não está sendo apolítico.

A arte não precisa se justificar. Se quiser, pode. Se não quiser, tá tudo bem também. Se tudo precisa ser útil o tempo todo, então talvez o que a gente perdeu não foi o senso crítico, não. Foi a capacidade de brincar. E isso é perigosíssimo.

Dê um nome para a sua geladeira

Tive um insight esses dias. Sobre geladeiras, mas não somente. Atualmente, eu tô lendo um livro chamado Lembranças do futuro , do Luiz Sergi...