06/05/2025

System of a Down é um fantasma num mundo que precisa de um monstro

Eu nunca fui muito do nu metal, mas eu sempre gostei de System of a Down. Fiquei muito impactado pelo hiato que a banda anunciou em 2006. Uma lástima, depois de dois discos tão potentes: Mesmerize e Hypnotize.

Em 2008, quando o Scars on Broadway, projeto paralelo do guitarrista Daron Malakian, surgiu, eu ainda ressoava com o discurso urgente do vocalista Serj Tankian. O cara tava na ONU. Tava gritando verdades num tom que parecia alto o bastante pra atravessar as paredes do sistema. Já o Daron soava como um derrotista.

Eu nem ouvi Scars on Broadway por muito tempo. Eu gostava tanto do SOAD que parecia traição. Pelo pouco que me chegou, Scars era niilista. Serj era engajado.

Até que um dia, sem querer, eu ouvi Scars on Broadway.

Achei que era música nova do SOAD. Senti aquela pulsação familiar, um estranhamento convidativo. Quando percebi que não era SOAD, decidi ouvir tudo.

E bateu.

O que parecia niilismo era outra coisa. O Daron não queria entrar pela porta da frente. Queria botar fogo na casa e tocar guitarra no meio dos escombros. Não era "não ligo pra nada". Era "ligo tanto que não dá pra aceitar essa palhaçada". Não era menos político que o Serj. Era mais incômodo.

O Serj te leva pro protesto. O Daron te deixa no meio do caos. E às vezes é nessa situação que você sente o que é a ruína.

Isso me fez repensar o percurso do System of a Down.

O Serj era o sentido. A denúncia articulada. O Daron era a presença. Uma declamação que se expressava mais na forma do que na letra. Durante um tempo, a combustão entre os dois funcionou. Mas quando cada um amadureceu sua proposta, eles precisaram de espaço.

Daron soube combinar discurso e forma com precisão. De novo, eu nem sou de nu metal, mas Scars me bagunçou. Já o Serj virou figura pública. Institucional. Respeitável.

E é aí que, pra mim, a balança pende.

O Serj continua necessário, mas domesticado. Ainda grita, mas o grito vem com crachá. Eu até posso ouvir, mas não consigo assumir aquele discurso como meu. O Daron, não. Ele te desconserta, te fere. Expressa a potência da raiva. Mostra que o riso no meio da destruição não é desespero. É lucidez.

O Serj, institucionalmente, inaugura pontes. O Daron queima.

Essa institucionalidade que eu desprezo é meio difusa mesmo. ONU, G7, OTAN, Estados Unidos. A tal "comunidade internacional" que impõe sanções de um lado e fecha os olhos do outro. É esse verniz civilizatório que define o que pode ser dito, sentido, tocado. Um teatrinho de diálogo onde só um lado fala.

Por isso é importante queimar pontes. Porque essas pontes foram impostas. Controladas por um lado só. Determinam as rotas. Cobram pedágio.

Não é como no mato, onde o caminho aparece porque as pessoas passam. Isso seria o ideal. Uma construção comum, orgânica. Pelas lentes do Scars, o mundo se manifesta por violência, e quem canta é a vítima.

E num mundo fudido como o nosso, o que a gente precisa é de Scars on Broadway. Não desse SOAD comportado que conversa mais com a nostalgia do que com o presente.

A gente precisa de barulho. De algo que incomode. De uma arte que diga que não vai ter cura limpa. Que não vai ter redenção dentro das instituições. Não vai ter conserto / concerto se a plateia é sempre a mesma.

A gente precisa de uma arte destrutiva.

Fazer arte propositiva? Só quando o mundo for, de fato, livre. Quando a gente puder criar sem passar pela autorização de um iluminismo fundado no colonialismo e na escravidão.

Até lá, o que a gente precisa é de som que desafine a paz. De uma arte que não se explica.

O SOAD hoje me soa como um fantasma. Um espectro que ronda o que já foi possível. O Scars, não. O Scars é um monstro.

E a etimologia ajuda: a palavra "monstro" vem do latim monstrum, de monere: avisar, mostrar, advertir. O monstro revela. Ele aponta o desequilíbrio. Ele avisa que tem algo errado no que chamam de normal.

O fantasma te prende ao passado. O monstro te revela o presente.

Daqui a alguns dias eu vou assistir a um show do SOAD. Reunido. Vai ser uma seresta. Só velho saudosista tentando acordar os fantasmas da juventude perdida.

Eu vou estar lá não por saudades, mas pra abanar o fogo. Pra ver se ele sai de controle.

Porque, do jeito que as coisas estão dispostas, a criação virou uma destruição consentida. Como dizia o tio Benjamin, "Não há documento da civilização que não seja ao mesmo tempo um documento da barbárie".

E talvez o que a gente precise agora seja o contrário.

Destruição como criação irrestrita.

Simples. Feia. Urgente.

Um comentário:

  1. Que da hora, eu nem conheço direito a banda, mas vou procurar esses albums depois de ler o seu texto.

    ResponderExcluir

Dê um nome para a sua geladeira

Tive um insight esses dias. Sobre geladeiras, mas não somente. Atualmente, eu tô lendo um livro chamado Lembranças do futuro , do Luiz Sergi...