Não sei se é universal, não sei se é o Ocidente, o que eu sei que eu sempre ouvi um discurso, em tudo quanto é canto, da primazia da qualidade sobre a quantidade. Sabe? E parece fazer sentido, né?
De um ponto de vista cognitivo, hermenêutico, focar em quantidade parece ter um quê de desperdício, de hedonismo, de burrice até.
Mas acho que se faz necessário uma defesa da quantidade.
Obviamente que eu não sou um acumulador capitalista descerebrado, mas tem um prazer inenarrável na quantidade que a qualidade não atinge. A qualidade não explora esse terreno, saca?
Lembro de uma vez, quando eu era adolescente, que minha mãe deu uma barra de chocolate de presente, uma pra mim e outra pro meu irmão. Eu devorei a minha na mesma hora. O paladar importava menos que o frenesi. Foi gostoso, mas não necessariamente pras papilas gustativas. Foi outro tipo de prazer. Um prazer destrutivo, talvez? Não sei muito bem, não fiquei confabulando. Sei que eu fui repreendido.
Eu consigo entender o prazer qualitativo quando uma pessoa tenta esgotar cada molécula de sabor deglutindo bem devagar pra dar tempo do corpo processar o sabor, consigo mesmo. Eu, eventualmente, faço isso com uma coisa ou outra. É agradável, é prazeiroso.
Mas isso não tira um prazer totalmente diferente que a experiência quantitativa oferece.
Sabe quando você vai fazer xixi com a bexiga quase, quase estourando? Então, prazer.
O Wilhelm Reich deve falar algo nesse sentido, num é possível que eu esteja sozinho nessa. O Reich ou alguém, sei lá.
Ou subir uma ladeira bem grande pra descer de rolimã ou ski-bunda com papelão? Descer devagarinho pra experimentar cada pedaço de verticalidade se desdobrando aos pouquinhos não tem a MENOR graça, concorda?
O frenesi da quantidade traz uma sensação que não é melhor nem pior que o da qualidade, é diferente. Não é uma questão de opostos, de preto e branco: são matizes sensoriais distintos.
Não é hedonismo. O hedonismo prega um prazer 24/7, de guiar toda a experiência da vida pelo prazer.
Não sou expert, mas sei que Epicuro falava de prazer como ausência de dor (mais contido), enquanto Aristipo, discípulo de Sócrates, pirava no hedonismo forte. Ele teria comido as duas barras de chocolate, a minha e a do meu irmão, antes de alguém sequer dizer "bom apetite".
O que eu tô tentando defender, aqui, é que a experiência quantitativa não é um prazer menor ou inferior à experiência qualitativa. Que o excesso é tão valioso quanto o intenso.
O frenesi de mastigar e engolir algo brutalmente, enquanto experiência, pode ser tão prazeiroso quanto (ou até maior) que prazer gustativo de um paladar lento e intenso.
Porque, no fim das contas, às vezes a vida pede mesmo um frenesi de chocolate, uma ladeira gigante e uma bexiga quase explodindo. Eu amo a quantidade!
Interessante seu ponto de vista, Douglas. Tem momentos que só queremos mesmo muita coisa, tudo que achamos que temos direito, sem parar para pensar muito se é de qualidade ou não. Quanto ao prazer, sabemos que é uma via de mão dupla e que os excessos podem levar à problemas maiores. Da minha parte, sempre preferi a qualidade em muitas coisas mas não em outras, confesso (por exemplo, ler livros). Quanto mais livros, melhor. E não precisam ser sempre livros lá de alta qualidade, com histórias primorosas ou informações úteis. Tem horas que "Mais é mais", simplesmente.
ResponderExcluirTem dias que a gente quer um prato premiado, outros que só quer se empanturrar num rodízio barato. Nenhuma das duas coisas tá errada, só são jeitos diferentes de matar a fome (ou o desejo, ou a curiosidade, ou seja lá o que for).
ExcluirLeve, divertido, no entanto, fundado em exemplos aleatórios e desconexos. O que fica depois da "experimentação acelerada"? - perguntaria Byung-Chul Han, provavelmente. A qualidade da escrita leve e inventiva é um traço virtuoso, isso o texto tem de sobra. Gostei da leveza, sobretudo da "afronta" às verdades-clichês.
ResponderExcluirO que sobra depois da experimentação acelerada? Talvez só um arroto satisfeito, talvez uma dor de barriga. Mas, às vezes, também sobra memória, intensidade e aquele sorriso besta de quem se jogou sem medo. Nem tudo precisa deixar um legado, às vezes só precisa ser vivido.
ExcluirVi na internet (então deve ser verdade) um professor que teria dividido uma turma de cerâmica/escultura em argila, e um grupo ele iria avaliar pela qualidade da peça e outro pela quantidade, ao final desse experimento no grupo avaliado pela qualidade muitos nem apresentaram nada porque estavam tão preocupados em fazer o melhor trabalho que não conseguiram fazer nada, enquanto o grupo da quantidade apresentou trabalhos maravilhosos, porque quanto mais peças faziam melhor eles ficavam. A lição era alguma coisa na linha de é mais importante começar a praticar algo que queremos fazer do que se preocupar em fazer o melhor logo de cara. Não sei se tem algum propósito meu comentário, mas lembrei disso lendo teu texto.
ResponderExcluirE eu concordo, viu? Dou aula prática de audiovisual e design, e vejo isso o tempo todo: a prática constante (quantidade) gera mais progresso do que a busca obsessiva pela perfeição (qualidade). Quem termina mais coisas aprende mais, quem fica polindo indefinidamente em busca de perfeição fica estagnado.
ExcluirAh, pesquisei aqui: o experimento que você citou parece que vem do livro "Arte e medo: Observações sobre os desafios (e recompensas) de fazer arte", de or David Bayles e Ted Orland.