"E não podemos esquecer de que a Freezen machina vulgaris é dotada de uma sedutora luz interior. Quem nunca abriu uma geladeira no escuro não sabe a qualidade da experiência que está perdendo. É algo simultaneamente sensorial e estimulante. Poderíamos dizer até que é experiência que se atreveria ao transcendental. Epifânica, na definição de alguns mais entusiasmados, sem nos esquecermos de que o conceito está sendo aplicado aos restritos limites do universo medíocre dos lares contemporâneos, lógico."
Flerta com o transcendental, né? A porta se abre, a luz acende, o mundo suspende por alguns segundos. Mais pra frente, ele fala da invisibilidade da geladeira na rotina doméstica:
"(...) dificilmente nos dirigimos à geladeira pensando na própria. Dificilmente pensamos “estou diante da geladeira, vou abri-la e escolher algum produto saboroso para consumir”. Sequer agradecemos pelos seus serviços prestados."
Não me identifiquei tanto, já que eu me acho bastante consciente dessas coisinhas rotineiras. Mais do que é saudável, provavelmente. Logo depois, ele faz uma sugestão que, essa sim, me pegou de vez.
"Outra sugestão que podemos oferecer é batizarmos nossas Freezen machina vulgaris com um nome ou apelido. Certamente elas gostarão do tratamento diferenciado, e nosso vocabulário se enriquecerá com expressões como: “Vou pegar uma cerveja no Crisóstomo”. Ou ainda: “Querido, pegue a sobremesa na Brenda”. Ou quem sabe: “Coloque o sorvete na Janjona, Mário”."
Daí me veio um insight materialista: o fetiche da mercadoria funciona melhor quando o objeto é mudo e anônimo.
Se a gente vivesse num mundo menos empenhado em apagar suas próprias origens, cada eletrodoméstico teria créditos, tipo um filme. Um sistema que cruzasse o número de série do objeto com folhas de ponto das fábricas, das cadeias de extração, das linhas de montagem, da logística de distribuição. Da rocha arrancada do chão ao último parafuso apertado, do depósito até sua porta. Créditos mesmo, tipo de filme. Exigência sindical. Seria gigantaresco (tipo de filme). Pro seu liquidificador Mondial. Pra sua geladeira Electrolux. Pro seu ventilador Britânia.
Isso é tecnicamente possível, mas politicamente inviável. O sistema não gosta de objetos com história. É importante apagar as mãos, o suor, os turnos, os corpos, as minas, as soldas, os acidentes.
Mas a sugestão do Raghy, de batizar as geladeiras, também parece funcionar como um gesto de desfetichização do mundo.
Porque dar um nome à geladeira não é acreditar que ela tem alma. É recusar a ideia de que ela surgiu do nada, como um feitiço. É um doidismo consciente. Uma pequena sabotagem contra o universo funcional e medíocre em que se configurou a vida nos nossos tempos.
Quando a geladeira se chama Janjona, Crisóstomo ou Brenda, ela deixa de ser apenas um utensílio e passa a ocupar um lugar no campo da existência. Não porque virou sujeito, mas porque deixou de ser uma coisa neutra.
Raghy observa que dificilmente pensamos “estou diante da geladeira”. A gente não agradece seus serviços. A gente sequer reconhece sua presença. O nome é o primeiro gesto de agradecimento. Um lembrete mínimo de que aquilo ali não é magia industrial, mas condensação de mundo, trabalho e tempo.
Se a gente ainda não posso ler os créditos com os nomes de todos os operários colados na lateral da geladeira, eu ao menos me recuso a fingir que ela nasceu pronta. Dou a ela um nome próprio para lembrar que ela é presença.
E que toda presença tem história, mesmo quando o sistema insiste em apagá-la.

E quando se abre a geladeira na esperança de que ela te traga algo novo, mesmo você sabendo cada coisa que tenha dentro? Você nem sabe o que quer, na verdade, mas vai que você não reparou que tinha um pedaço de bolo escondido atrás da caixa de leite? Ou então abrimos a porta apenas para por abrir, refletir e contemplar o que tem dentro com a mente vazia — até a mãe gritar no teu ouvido pra fechar a porta da geladeira, por acaso você é sócia da Light? hahahahaha
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